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EXCLUSIVO: Setorista do Newcastle Chris Waugh fala de bastidores, Steve Bruce, contratações e mais

Atualizado: 29 de jul. de 2021

Jornalista também tratou do processo de venda do clube para consórcio saudita e do que podemos ver na nova temporada

Por Valentin Furlan — Newcastle upon Tyne, Inglaterra

25/06/2021 18h05

No sentido horário, de cima para baixo: Miguel Almirón; Steve Bruce e Federico Fernández; Mike Ashley, dono do clube; Callum Wilson e Allan Saint-Maximin; no centro, o entrevistado Chris Waugh — Composição: Getty Images e TheAthletic

Não foi uma temporada fácil para o Newcastle, muito pelo contrário. Os Magpies terminaram na 12ª posição da Premier League com performances muito abaixo do esperado e com críticas vindo de todos os cantos em direção ao treinador Steve Bruce, que ficou à beira de uma demissão em grande parte do tempo.

Mas se a diferença para o Fulham, 18° colocado, foi de incríveis 17 pontos é porque a estratégia de Bruce nas últimas semanas de um dos campeonatos nacionais mais difíceis do planeta surtiu efeito. Com cinco vitórias conquistadas nos últimos oito jogos do Inglês, o time passou de candidato ao rebaixamento para um figurante no muito mais tranquilo meio de tabela.

Assim, o Zona Mista entrevistou o correspondente do Newcastle United pelo periódico inglês TheAthletic, Chris Waugh, que abriu o jogo quanto ao que se espera da equipe na próxima campanha, além de ceder detalhes dos bastidores da temporada 2020/21, que muito ficou marcada pela possibilidade de venda do clube para um fundo de investimento saudita.

Embora admita que grande parte das apresentações do time tenham sido irregulares, Chris assume que manter Bruce foi a "decisão correta", mas não o garante no cargo caso realmente haja uma troca de comando na gerência do clube.

O jornalista, que acompanha todos os jogos do Newcastle in loco desde 2015, também comentou a situação do brasileiro Joelinton, que sofreu com falta de tempo no gramado e irregularidade nos últimos meses.

 

Leia abaixo a entrevista completa:

ZonaMista.net – Foi uma temporada difícil para o Newcastle, apesar de terminar na 12ª colocação da Premier League. Em meio a lesões e performances ruins, Steve Bruce teve suas costas contra a parede durante maior parte da temporada. Considerando todas as críticas realizadas, como está o relacionamento do treinador com jogadores e diretores para o começo desta pré-temporada? Quâo confiantes eles estão com Bruce no comando técnico?

Chris Waugh – A relação de Steve Bruce com os diretores é muito boa. Em março, quando muitas pessoas achavam apropriado que Steve Bruce fosse demitido, eles – Lee Charnley é o diretor executivo do clube em nome de Mike Ashley, o dono – mantiveram confiança nele. Eu acho que a derrota por 3 a 0 fora de casa, contra o Brighton, era uma forte justificativa para tanto. Naquele momento, o futuro realmente parecia ser a Championship, o rebaixamento, mas Charnley logo desmentiu os rumores. Bruce afirmou não estar indo a lugar algum, que os diretores o manteriam no cargo e que estava confinte em seguir com o projeto. E, no final das contas, acabou sendo a decisão correta. Eu tinha várias dúvidas na época, mas o Newcastle deu a volta por cima e terminou a temporada muito, muito bem. [Houve também o impacto de] Graeme Jones, ex-Bournemouth, um auxiliar técnico que assinou contrato com o clube em janeiro. Atualmente ele faz parte da comissão técnica da seleção da Inglaterra na Euro 2020. Enfim, a relação de Bruce com a direção é boa.

– Com alguns jogadores o relacionamento realmente se rompeu. Certamente havia alguém a favor da sua demissão em março. Ainda há algumas tensões subjacentes, mas também existem aqueles leais a ele. Eu acho que é um ponto-chave que eles se unam na pré-temporada e comecem em uma atmosfera positiva. O problema básico que Steve Bruce tem é o grande contingente de torcedores que não o aceitarão no cargo. Ele foi vaiado quando o Newcastle recebeu 10 mil torcedores no último jogo em casa na temporada passada, contra o Sheffield United, então ele certamente precisa de um bom começo na próxima temporada para que isso mude.

Steve Bruce aplaude torcida presente na vitória por 1 a 0 sobre o Sheffield United no St. James' Park— Foto: Stu Forster / Getty Images

Março foi um mês difícil quanto às lesões. Houve um momento em que Callum Wilson, Almirón e Saint-Maximin estavam no departamento médico ao mesmo tempo, causando problemas severos no ataque. A que se deve isso: casualidade ou há, na sua opinião, algum problema com o preparo físico do time?

– Há alguns problemas aí. Esta foi a temporada mais difícil, fisicamente falando, que qualquer jogador já teve. Esta e a anterior, na verdade. O Newcastle não teve uma pré-temporada, e alguns jogadores foram fisicamente afetados por causa disso, mas a Covid-19 também contribuiu: Saint-Maximin foi um dos que enfrentou problemas e sofreu com o processo de recuperação. Foi contaminado, ficou um bom tempo afastado e desenvolveu algumas lesões musculares por causa disso. Então acho que são alguns diferentes elementos. Alguns podem argumentar que o preparo físico dos jogadores também teve influência nisso, mas acho que se trata mais da natureza infeliz desses atletas em se submeterem a lesões nos músculos, dado como a temporada foi conduzida. Agora, realmente, ter os três afastados ao mesmo tempo foi um problema, o Newcastle não encontrou nenhum tipo de ameaça no ataque para suprir suas ausências. E foi justamente o retorno de Saint-Maximin que mudou o rumo da temporada para melhor. Ele marcou um gol e deu uma assistência na vitória contra o Burnley, no Turf Moor, que acabou dando gás para os últimos jogos do campeonato. Ele é uma peça crucial para o Newcastle, assim como, obviamente, os gols de Callum Wilson.


Houve confirmação de que Bruce ficaria até o fim da temporada passada. Mas e quanto à nova campanha? O Newcastle cogitou trocar de treinador nas últimas semanas?

– A resposta é não, mas há uma ressalva. Não, porque Lee Charnley se comprometeu com Steve Bruce em março – ele deixou bem claro que Bruce seria o treinador, que seguiriam com ele – e pela maneira confortável como o time terminou a Premier League. Não houve qualquer movimentação ou qualquer outra coisa nesse sentido, nenhum desejo de trocar o comando técnico, até porque o Newcastle teria que desembolsar uma significativa compensação.

– Então, enquanto Mike Ashley for o dono, Steve Bruce será mantido no cargo.

O que acaba complicando é a situação relacionada à venda do clube, nos últimos oito meses. O Newcastle possui dois processos jurídicos em tramitação no momento. Um deles é contra os proprietários e diretores da Premier League, que deve ser realizado em julho, para finalmente permitir a compra do clube pelo Fundo de Investimento da Arábia Saudita (PIF, em inglês), por 305 milhões de libras (aproximadamente R$ 2,1 bi). E se o Newcastle realmente for vendido para o consórcio, acho que é muito provável que Steve Bruce seja, então, trocado por outro treinador. Mas, por ora, enquanto Mike Ashley seguir como dono, Steve Bruce será o treinador.

Assistindo à partida no St. James' Park, Mike Ashley, dono do Newcastle United — Foto: Andrew Boyers / Pool / AFP via Getty Images

Brandom Williams, do Manchester United, tem sido muito citado pela mídia inglesa como potencial reforço para o clube. Você tem alguma informação sobre essa ou alguma outra possível contratação?

– Brandom Williams é um jogador do gosto do Newcastle. Eles tentaram fazer uma sondagem na janela de meio de 2020 e, em janeiro, ainda procuravam mais opções para as laterais, então ele é um jogador que interessa. Contudo, no momento o foco é, através de empréstimos, trazer um zagueiro ou um meio-campista. Eles podem trazer Joe Willock de volta (o jogador voltou para o Arsenal após período emprestado), mas a real prioridade é um zagueiro: eles gostam de Axel Tuanzebe, do Manchester United, e o principal nome é Kristoffer Ajer, do Celtic. Há também Cameron Carter-Vickers, emprestado ao Bournemouth pelo Tottenham. Então, o Newcastle está procurando priorizar essa posição. Brandom Williams pode acabar chegando emprestado, mas não é da posição de preferência do clube.

O que pode nos dizer do futuro de Joelinton no Newcastle? Por que estamos vendo o brasileiro, maior contratação da história do clube, tendo tão pouco tempo no gramado? Alguma possibilidade de transferência?

– Não há dúvida nenhuma que o Joelinton tem tido momentos difíceis. Ele foi comprado por 40 milhões de libras (quase R$ 275 mi, na cotação atual), mais que o dobro do recorde anterior. Ele foi comprado pela equipe de futebol do Newcastle e, não, por Steve Bruce. Joelinton foi praticamente dado para ele, então já havia um problema imediato ali, uma vez que ele não era um jogador que Bruce necessariamente desejava. Ainda, nesse sentido, não houve muita cautela na análise de como ele poderia entrar no time. Ele foi trazido para jogar com um centroavante mais 'pesado', mas não havia feito esse trabalho antes e acabou tendo dificuldades na primeira temporada com o Hoffenheim.

Joelinton, em partida contra o Aston Villa em março; Brasileiro teve temporada irregular — Foto: Clive Brunskill / Getty Images

– Mas ele se beneficiou da chegada de Callum Wilson, pareceu melhor jogando ao lado dele, então certamente houve uma melhora nas últimas semanas da temporada. Por isso, não acho que exista muita chance de uma transferência nesta janela. O Newcastle ainda quer colher os frutos do grande investimento. Ainda não acho que seja um titular absoluto, dado que Wilson, Saint-Maximin e Almirón já estão no time e devido ao impacto que Joe Willock causou. E Willock como titular só mostra que Joelinton ainda pode gerar mais impacto. Tomara que, para os torcedores do Newcastle, ele possa ser visto de maneira um pouco mais positiva na próxima temporada.

Agora, olhando para o quadro geral da Premier League, tivemos apenas quatro técnicos demitidos na última temporada – Frank Lampard (Chelsea), Slaven Bilic (West Bromwich), Chris Wilder (Sheffield United) e José Mourinho (Tottenham) –, mas também estamos vendo Everton, Wolverhampton e Crystal Palace procurando nomes para o cargo. Por que acha que estamos tendo tanta movimentação no mercado de treinadores? A última temporada os colocou em uma situação mais delicada em função das consequências da pandemia (estádios vazios, menor orçamento, etc.)?

– É uma boa pergunta. As mudanças técnicas em Everton, Tottenham e Crystal Palace se tornaram um pouco caricaturescas. já que se estenderam por muito, muito tempo. Alguns desses clubes citados tiveram dificuldades em encontrar o treinador certo no longo prazo. A situação do Palace, claro, é um pouco diferente, dada a idade de Roy Hodgson (que se aposentou ao fim da temporada passada), mas Everton e Tottenham... Bom, o Everton perdeu um treinador que deixou o posto inesperadamente (Carlo Ancelotti aceitou proposta do Real Madrid) e o Tottenham contratou basicamente um homem que parecia ir no sentido oposto aos valores que Daniel Levy, o dono do clube, pregava. Então acho que é uma questão de encontrar os treinadores que se encaixem naquilo que você planeja para o futuro e na maneira em que você tenta inserir isso no clube.

– A Covid-19 provavelmente também teve um impacto na gerência do orçamento, mas acho que os estádios vazios podem ter acabado ajudando alguns treinadores, como Steve Bruce e outros.

A última temporada do Inglês ficou marcada por muitas lesões. Sabe nos dizer o por quê disso ter sido uma constante?

– Nós tocamos nesse ponto na pergunta anterior, mas acho primeiramente que isso se deu pela dificuldade física em jogar duas temporadas seguidas durante a pandemia: muitos jogos em pouco espaço de tempo, pouco tempo de descaso, falta de uma pré-temporada... Isso certamente impactou muitos jogadores. Se você falar com qualquer um no meio futebolístico, particularmente no lado científico do esporte, eles vão te dizer que as demandas físicas impostas aos jogadores é simplesmente excessiva.


Saint-Maximin é atendido por equipe médica do Newcastle — Foto: Carl Recine / Pool / Getty Images

– O vírus também teve seu impacto, no geral. Jogadores do Newcastle – Saint-Maximin, por exemplo – e de outros clubes que acabaram sendo contaminados foram afastados e acabaram perdendo ritmo por conta disso. Seus músculos não reagem bem. Federico Fernández, do Newcastle, teve meses enfrentando isso. Jamaal Lascelles e Saint-Maximin também. Essas são as principais razões, ao meu ver.

Enfim, considerando o atual elenco, alguma contratações potenciais e tudo o que foi falado até aqui, qual sua expectativa para a próxima temporada do Newcastle? Bruce pode dar a volta por cima?

– É uma excelente pergunta. Por enquanto, acho que na próxima temporada o Newcastle vai sobreviver com um pouco mais de conforto do que na campanha passada, mas ainda acho que ficarão na parte debaixo da tabela.

– Não consigo vê-los diminuindo a diferença para o top 10 se não houver contratações decentes. Mesmo que eles consigam trazer Willock de volta, não vai significar nada além de que possuem um elenco tão forte quanto o da temporada passada, em termos de profundidade, e um time principal aceitável. O problema é ir além disso, e eles realmente têm dificuldades em alguns setores.

– Quanto a Bruce dar a volta por cima, potencialmente com alguns resultados ele poderia ser visto de maneira um pouco mais positiva, mas acho que há alguns torcedores que simplesmente não vão aceitá-lo como treinador. Basicamente, a paciência deles se esgotou. Ele realmente precisa de um bom começo na próxima temporada se quiser alguma chance de mudar a opinião pública.