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Do retorno desejado à demissão conturbada: relembre a trajetória de Carille, na volta ao Corinthians

Treinador foi o 7° com mais partidas sobre o comando do time, com 183 jogos; em duas passagens conquistou um Campeonato Brasileiro (2017) e três Paulistas (2017, 2018, 2019)


Técnico Fábio Carille teve altos e baixos durante sua segunda passagem — Foto: Fernando Dantas

22 de dezembro de 2016: uma data especial para Fábio Carille. Contratado em 2008 como auxiliar, ex-treinador corintiano, há quase três anos, era efetivado e assumia o comando técnico da equipe, após falha na contratação de Reinaldo Rueda. Com três títulos conquistados em menos de um ano e meio, Carille se despediu do clube em maio de 2018 e se transferiu para o Al-Wehda. Após uma temporada na Arábia, ele retorna ao Corinthians para dar início à sua segunda passagem, encerrada no último domingo, após goleada sofrida para o Flamengo, com sua demissão.



Nota do autor: a matéria foi dividida por campeonatos para a melhor análise de desempenho da equipe. No entanto, vale lembrar que a Copa Sul-americana foi disputada durante certo momento, em um mesmo período que o Campeonato Paulista e, posteriormente, Brasileiro, logo, a fase do time refletia também as atuações nestas duas competições. Para melhor entendimento, foi estabelecida uma linha temporal para que o leitor consiga lincar as informações dadas entre as três competições.



Campeonato Paulista 2019


Carille reestreou com o pé direito? Há quem diga que não, mas três campeonatos paulistas em três anos de carreira é uma média interessante, não acha? Além disso, que tal quebrar um tabu de 80 anos sem levantar o troféu paulista por três vezes consecutivas? Pois é, parecia que tudo ia bem no Parque São Jorge, analisando os resultados. No entanto, seria mentira dizer que a torcida e a imprensa estavam muito confiantes quanto à temporada que de fato se iniciaria com o começo do Brasileirão.


Na fase de grupos, o clube não era visto como um time de futebol vistoso, mas os bons números em clássicos (2 vitórias e 1 empate) ofuscaram o "futebol feio", como era chamado. Como de praxe, os grandes não tiveram problemas maiores e avançaram ao mata-mata.


Sob comando de Fábio Carille, a equipe venceu Palmeiras e São Paulo e empatou com o Santos, na fase de grupos — Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

Apesar da conquista, a equipe sofreu muito sobretudo na fase final e teve como o principal destaque o goleiro Cássio, com defesas muito importantes, especialmente nas quartas e semifinal, contra o Ferroviária e Santos. Nos dois confrontos, as partidas seguiram para os pênaltis. É importante relembrar as inúmeras defesas praticadas pelo goleiro corintiano durante a partida contra o Santos, quando o time foi completamente dominado. Aliás, Cássio que foi o nome da equipe na fase de eliminatórias, com defesas importantes nas disputas por penalidades máximas. Neste momento, o esquema de Carille, por mais resultados que estivesse trazendo até aquele momento, já começava ser mais questionado.


Na final, houve um confronto mais equilibrado com o São Paulo, tendo o gol do título saído apenas nos instantes finais.



Copa Sul-americana


Começou com um confronto muito difícil, contra o Racing e jogo de volta, duas semanas depois, na Argentina, no fim de fevereiro. O esquema defensivo funcionou muito bem e a partida foi para os pênaltis, com empates em 1 a 1 em ambos os jogos. Novamente, brilhou a estrela de Cássio e o clube avançou.


Cássio pegou pênalti de Domínguez — Foto: EFE/Juan Ignacio Roncoroni

Nas fases seguintes, enfrentou o Deportivo Lara e Montevideo Wanderers, times os quais não causaram muitos problemas para equipe, que venceu todas as quatro partidas disputadas nos finais de maio e junho, respectivamente.


Praticamente um mês se passou e, chegando na última semana de agosto, já com outra visão por parte dos torcedores e jornalistas especialmente quanto às táticas adotadas pelo técnico, a equipe enfrentou o Fluminense, nas quartas. Empatou em 0 a 0 na ida, com direito à muitas críticas à Carille pelo modo de jogo recuado contra uma equipe que figurava a zona do rebaixamento a apenas 6 pontos da lanterna. Na semana seguinte, a equipe foi ao Rio e conseguiu a classificação pelo gol fora, após outro empate, mas agora em 1 a 1. Nesta ocasião, a equipe foi elogiada pelo desempenho ofensivo e notório controle da partida.


Nas semifinais, Fábio Carille enfrentou o Independiente del Valle. Foi um primeiro jogo muito ruim e o treinador nunca havia sido tão criticado na história sobre o comando do clube. No dia 25 de setembro, sete dias passados, a equipe conseguiu dar um adeus honroso à competição. Com gols sofridos em duas falhas, o clube teve postura exemplar na partida, ficou à frente duas vezes mas, com a eliminação, não há boa atuação que tornasse as críticas e questionamentos silenciosos: o treinador se encontrava na corda bamba.


Corintianos lamentando gol do del Valle, nas semifinais da "Sula" — Foto: Marcos Ribolli


Campeonato Brasileiro


A vida do técnico tricampeão paulista não começou muito bem no campeonato, sem conseguir figurar o topo da tabela até a Copa América, em julho. O clube mal era citado como um dos candidatos à Libertadores e de fato não vinha jogando um bom futebol e Carille tinha conhecimento disso.


Como já era esperado, a Copa América seria um divisor de águas para o campeonato, e em verdade foi: clubes com alto desempenho até então como o "já campeão", como grande parte da imprensa anunciava, Palmeiras, tiveram uma grande queda de desempenho do fim de julho em diante e Felipão consequentemente teria a cabeça cortada. Com o Corinthians, o efeito foi o oposto: a equipe começou a jogar um futebol mais ofensivo e começou a receber elogios da imprensa. Com isso, Fábio Carille tinha o clube o qual comandava como um dos principais candidatos ao G-4.


Contudo, a fase durou pouco mais de dois meses e a equipe voltaria a encontrar dificuldades na criação, apesar de solidez defensiva. O time perdeu o clássico contra o São Paulo, no Morumbi, dia 13 de outubro, e a coisa se alastrou, a torcida já se impacientava com as decisões do técnico corintiano e alguns já pediam sua demissão. Daí em diante, as coisas não melhoraram e o Corinthians não mais venceria sob o comando de Fábio: o clube não se recuperou da má fase e acabou sofrendo uma goleada por 4 a 1, contra o Flamengo, no Maracanã, e o clube informou sua decisão em encerrar sua segunda passagem.


Boselli durante derrota no Majestoso, no Morumbi — Foto: Danilo Fernandes/Meu Timão



Declarações polêmicas


Carille, você já deve ter percebido, caso não soubesse, sofreu com as críticas vindas da torcida e da mídia. Isso era facilmente notado, especialmente em uma de suas últimas coletivas. Aliás, o próprio se resumia como uma pessoa que não tinha medo de falar a verdade. Acompanhe algumas das citações que ganharam repercussão:


"Vergonha. Não preciso olhar como torcedor, não, tenho que olhar como comissão e ser ciente daquilo. Vergonhoso, não parece um time treinado, parece que se junta no vestiário e vai para o jogo. Você passa informações e depois tá na beira do campo e isso não é feito. Não está faltando raça, mas tecnicamente a gente tem que ser melhor".

"Eu mesmo estou me criticando, cobrando, treinando, trabalhando. Cria-se uma expetativa de ganhar tudo e não estamos preparados para ganhar tudo. Fomos campeões paulistas, vai entrar no meu currículo, mas não foi jogando bem. Estamos precisando jogar mais e melhora com treino e vídeos. Mas não temos muito tempo para treinar".

Fábio Carille concedendo entrevista após classificação e vitória sobre o Montevideo Wanderers, em agosto, por 2 a 1 — Foto: Luis Moura/Estadão Conteúdo



Números



Encerramos a matéria com os números de Carille, nesta sua volta:


Números de Fábio Carille em seu retorno ao Corinthians — Foto: Zona Mista

Enfim, foi uma volta conturmbada, apesar do título paulista. Entre altos e baixos, a pergunta que fica é: foi justa a demissão?