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Conversamos com Paulo Mancha: qual o impacto da pandemia do coronavírus na próxima temporada da NFL?

Atualizado: 23 de jul. de 2021

Analista dos canais ESPN comentou como a liga e suas franquias serão afetadas pela doença

Por Valentin Furlan — São Paulo

26/06/2020

Paulo: "Eu não queria estar na pele do Roger Goodell neste momento" — Foto: ESPN Brasil

Ligas e campeonatos parados: esse era o cenário vivido por praticamente todo o mundo durante as últimas semanas. Se na Europa o futebol e outros esportes já voltaram a ser realidade, na América a situação é bem mais delicada. Brasil e EUA formam dois dos maiores países contagiados pelo novo coronavírus, somando juntos mais de 150 mil mortes e, com isso, não há nada mais esperado do que um completo mistério quanto ao futuro do mundo esportivo no continente. Seja o futebol brasileiro, seja a NBA, seja a NFL, a indefinição reina.

Portanto, a fim de discutir respostas e antecipar as possíveis sequelas deixadas pelo vírus, Paulo Mancha D'Amaro, comentarista e analista de futebol americano da ESPN Brasil, aceitou nos ceder uma entrevista justamente discutindo qual o futuro da temporada de 2020 da NFL.

Acompanhe abaixo a entrevista completa:


ZonaMista.net – Assim como, segundo a ESPN americana, a NBA mandou memorandos às franquias pedindo para que os atletas passassem a se cumprimentar com socos e a evitar interagir fisicamente com a torcida à beira da quadra, você acha que existe alguma maneira viável nesse sentido de se evitar abraços e cusparadas no gramado, por exemplo, a ser promulgada para nova a temporada, ainda mais se lembrarmos que se trata de uma liga de esporte essencialmente de contato?

Paulo Mancha – Os protocolos de segurança estão sendo feitos, e esta semana [semana passada] o médico-chefe da NFL, Allen Sills, falou bastante sobre eles. Mas o Dr. Sills também deixou claro que nenhuma providência será 100% efetiva contra um vírus que se propaga tão facilmente. Tudo vai depender de quanto os atletas e técnicos levarem a sério os protocolos. Eu acho muito provável termos vários atletas e membros de comissão técnica contaminados ao longo da temporada. Será um campeonato muito atípico.

Falando agora do pós-Draft, você acha que tanto os atletas recém-selecionados quanto os mais experientes em novas franquias – como é o caso do quarterback Tom Brady, de 43 anos, que chega a um Tampa Bay comandado por um treinador de filosofia bem diferente do que víamos em New England – poderão sofrer com um menor tempo de adaptação (entendendo os playbooks, schemes, sistemas, etc.) ou mesmo de treinamentos com seus colegas de time?

– Com certeza. A preparação já foi prejudicada e continuará sendo. A tendência é de atuações abaixo da média e jogos menos espetaculares do que vimos em 2019. Lembrando que futebol americano, diferentemente do soccer (futebol, em tradução), por exemplo, é um esporte em que a repetição perfeita de algo pré-estabelecido tem mais importância do que a capacidade de improvisar em campo. Sem falar nas diferenças de regras e dinâmicas entre college e NFL. Imagine um wide receiver sem a devida adaptação... Nesse sentido, teremos um começo de temporada pior do que nos anos anteriores, porque faltará treino e sobrarão erros, acredito eu.

Primeira escolha do Draft 2020, Joe Burrow é a esperança dos Bengals para o futuro da franquia, apesar de pouco tempo de treinos — Foto: Chris Graythen / Getty Images

Complementando a última pergunta, existe alguma possibilidade de não termos os training camps nesta inter-temporada?

– Acho difícil não haver. Mas isso pela perspectiva de hoje [data da entrevista], dia 19 de junho. Basta que aconteça uma mutação no vírus e que tenhamos uma segunda onda mais mortal, e todo o panorama muda. A torcida é para que isso não ocorra. De qualquer forma, eles não terão o mesmo nível dos “normais”, em anos sem pandemia.

Jogadores dos Cowboys fazem aquecimento durante período de training camp — Foto: Michael Ainsworth / The Dallas Morning News

Los Angeles é uma das cidades americanas de maior contágio. Você acha praticável e realocar os Rams, a título de exemplo, a um estado que possua índices de contágio menor para os jogos como mandante?

– É uma possibilidade que tem sido mencionada. Não é algo absurdo, porque estrutura para isso existe em qualquer um dos estados vizinhos. Se o campeonato começar com portões fechados, esse tipo de mudança de sede fica mais fácil ainda, já que o fator torcida não fará diferença mesmo e não haverá ninguém protestando (e processando!) pela mudança.

Acha que seria executável realizar toda a temporada da NFL em apenas uma região ou um dos estados mais seguros, do ponto de vista patológico?

– Acho difícil. Precisamos lembrar que o elenco de um time possui 53 atletas, fora practice squad – 1.700 jogadores, fora as comissões técnicas. É muita gente para se controlar numa “bolha”. Não acredito nessa hipótese, porque seria pouco eficiente contra o coronavírus e criaria outros tipos de problemas. Por exemplo, com os contratos de naming rights dos seus próprios estádios, seus estandes de comida, lojas, etc.. Sem jogo, não há retorno financeiro para esses parceiros. O que os times fariam com isso? Acho inviável.

Sem a presença dos torcedores, é justo afirmar que equipes de menor mercado regional, como os Packers, que, na teoria, vendem uma quantidade menor de produtos licenciados do que franquias localizadas em pólos industriais ou de maior contingente populacional, tendem a sofrer mais pela falta de arrecadação?

– Acho que todos sofrerão e a diferença será pouco relevante. Ao menos a NFL tem contratos de TV e merchandising bastante igualitários, que compensam um pouco esse tipo de diferença que você citou. A saúde financeira dos times será afetada, mas não a ponto de se tornar um problema. Vale lembrar que, durante a crise econômica de 2008/09/10, a NFL foi a única grande liga americana que ficou com as contas no azul. Acredito na solidez de recursos dos times e duvido que fiquem em situação ruim, a menos que a pandemia se estenda até a temporada seguinte, de 2021/22. Aí, sim, a coisa pega.

O teto salarial acaba de ser reajustado para os 200 milhões de dólares. Podemos ver uma reconsideração da decisão pela liga com a iminência de uma menor arrecadação em 2020?

– A NFL é muito cautelosa nesse sentido e ainda haverá muita discussão sobre o salary cap até o começo da temporada. A associação dos jogadores (NFLPA, em inglês) está se preparando para uma queda do salary cap em 2021. Mas, nesse momento, é cedo para afirmar qualquer coisa.

Por fim, jogos com portões fechados ou adiamento da temporada: qual das opções você entende mais praticável e justa, dado o momento?

– Eu sou pela preservação da vida. Para mim, a NFL precisa neste momento adotar os protocolos mais rígidos possíveis e investir em flexibilidade, ou seja, ter um plano B e um plano C preparados. Caso a segunda onda do coronavírus atinja em cheio os EUA, a liga deveria adotar ambas as medidas: atrasar o início para fim de outubro (e eles já têm esse plano delineado) e fazer o campeonato com portões fechados. Mas, como eu disse antes, tudo depende do contexto. Parece que falta pouco tempo para 10 de setembro (data marcada para o início da temporada), mas a pandemia é mais dinâmica do que parece. Em três semanas, todo o panorama pode mudar – para melhor ou pior. Daí a necessidade de prever e preparar vários cenários.

– Eu não queria estar na pele do Roger Goodell neste momento.

Bank of America Stadium, em Carolina do Norte, sem público; NFL deve ter portões fechados ao público para a temporada 2020 — Foto: Jacob Kupferman / Getty Images