Internet das Coisas: conectar pessoas e objetos já não é mais coisa do futuro

Tecnologia retratada nos filmes de ficção possibilita interação entre pessoa-objeto e a tendência é de inovação constante no que ainda está por vir.

Quem já assistiu Tom Cruise em um cenário futurístico, recheado de tecnologia e ficção científica, logo imagina aquilo se tornando realidade. O enredo de Steven Spielberg, no começo da década de 2000, apresenta aos espectadores um cenário possível, diferente da animação Os Jetsons, que encantou a geração do cabelo mullet e das polainas coloridas.

Em Minority Report, carros auto-dirigíveis e o olho humano como instrumento de biometria para abrir portas dão a letra de uma realidade hoje existente. Com o sucesso animado que retratava a cultura norte-americana no futuro de 2062 ainda é o oposto: algumas das invenções fantasiosas, como objetos que passam de uma tela de TV para outra ou os sonhados carros voadores ainda não saíram da imaginação.

Mesmo longe de ter todos os problemas resolvidos por robôs, a revolução tecnológica bate a nossa porta e se incorpora ao cotidiano naturalmente. Se o termo Internet das Coisas nunca soou como música a seu ouvido, pode apostar que faz mais parte da sua vida do que imagina. Do inglês, Internet of Things, a IoT conecta pessoas a objetos do dia a dia, além da própria internet, possibilitando a otimização de dados, tempo, trabalho e espaço.

São inúmeros os benefícios da conectividade dos objetos. Já dá para sair de casa sabendo exatamente onde seu ônibus está, para que não precise esperar muito no ponto. Também é possível fazer o tão desejado home office e trabalhar compartilhando e recebendo arquivos armazenados em nuvem.

Se você acha que a IoT já é muita areia para o seu caminhãozinho, acrescente o conceito de Cidades Inteligentes ao pacote e comece a pensar em um modelo estratégico de interação urbana e social. Para ilustrar, o cientista da computação e engenheiro de software Vitor Casadei lembra os investimentos intensivos em tecnologia no país para as Olimpíadas.

O ranking Connected Smart Cities de 2016, divulgado pela consultoria Urban Systems, aponta as cidades brasileiras mais inteligentes, com critérios avaliados a partir de investimentos em saneamento, educação e sustentabilidade econômica, por exemplo. São Paulo figura no topo da lista, ultrapassando o Rio de Janeiro, que era dono da primeira posição em 2015.

A crise econômica tem contribuído para agravar o abismo entre os municípios brasileiros. Com contas no vermelho, a opção da administração pública é cortar investimentos, o que tem reflexos diretos nas áreas de educação, saúde, inovação, urbanismo e qualidade de vida da população.

“Passando esse período, vão ser necessários profissionais da área de tecnologia e Internet das Coisas, e isso vai acontecer daqui a cinco, seis anos. Os jovens vão ter que estar prontos para assumir esse papel tanto de transformação da sociedade quanto para modernização
dos pilares do país.” 
— Vitor Casadei,engenheiro de software.

Além de aspectos como sustentabilidade e melhoria na mobilidade urbana, o especialista alerta para a dimensão da cidade inteligente também como fator de inclusão para pessoas com deficiência:

“Existem outros focos muito importantes para a sociedade e que poderiam receber atenção maior, como a acessibilidade, que vai desde ter sinais de trânsito com notificação sonora até mesmo a ter pontos de ônibus acessíveis, que possibilitem maior mobilidade no transporte público.”

Vai e vem da conexão

Com olhos cada vez mais focados nos smartphones, as pessoas traduzem suas preferências, dados e estilo de vida por meio dos aplicativos. Os ícones são responsáveis por fazer a vida “funcionar” — desde acessar a conta no banco a escolher o filme que assistirá no cinema ao fim do dia.

Os meios de campo da IoT não são necessariamente os aplicativos, mas eles também estão inseridos no fluxo da conexão e são facilitadores no acesso remoto. Fabio Porto, doutor em informática e pesquisador do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) do Rio de Janeiro, aponta a funcionalidade dos utilitários:

“Aplicativos são exemplos de soluções concretas utilizadas pela população. Se você falar de Waze, todo mundo sabe o que é. O que as pessoas têm que ver não é necessariamente o que é a Internet das Coisas, mas o que ela propicia. E essa perspectiva é dada, de certa forma, pelos aplicativos.”

Por que investir?

Em 2016, o Brasil ficou em 69º lugar no Índice Global de Inovação, e foi pior ainda no Índice de Eficácia da Inovação, alcançando a 100ª posição. Em 2015 não foi muito diferente: 70º e 99º lugares, respectivamente.

A IoT se intensificou como pauta do governo brasileiro a partir de 2014 e, de lá para cá, fabricantes de equipamentos, empresas e universidades têm se reunido para discutir investimentos na área e desafios quanto à implementação. Em julho deste ano teve início a fase final do processo de contratação de uma consultoria que vai desenhar o Plano Nacional de Internet das Coisas.

O projeto será conduzido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI) — encabeçado por Gilberto Kassab, após extinção do Ministério das Comunicações no governo de Michel Temer. A previsão de implementação é para o segundo semestre de 2017, com validade até 2022. De acordo com Casadei, a chamada veio em um momento tardio, porém oportuno:

“Com o aumento da instabilidade política e econômica é complicado fazer muitas mudanças, mas o Brasil está bem lento e defasado na questão de pesquisa. Enquanto que em outros países você tem um incentivo, uma gratificação, aqui o pesquisador tem que ter muita vontade própria. Isso impacta na produção de novas tecnologias.”

Com a negligência do governo em relação a subsídios em universidades, as empresas privadas encontram aí uma brecha para apostar e investir. É o caso do estudante de ciência da computação, Enrique Sampaio, de 21 anos. Em parceria com a empresa One Sports, ele desenvolve na Universidade Federal de São Carlos, no

Enrique Sampaio dos Santos – Desenvolvedor One Sports

campus de Sorocaba, um sistema de monitoramento de atletas via GPS em tempo real, no qual os dados são disponibilizados na nuvem para análise.

O objetivo é melhorar a coleta de informações para avaliação de desempenho do esportista. Inicialmente a tecnologia será usada no futebol,
por ser o esporte mais popular em terras tupiniquins. O sistema pretende extrair o máximo de dados da performance dos jogadores, sem que haja desgaste físico.

“Há uma carência de tecnologias no esporte, principalmente aqui no Brasil, em pleno século XXI, onde tudo é conectado para tornar o mundo melhor”, critica Sampaio, que em breve lançará a primeira versão do sistema.

Pensamento nas nuvens

O projeto de Sampaio faz parte de uma das grandes esferas de IoT: o armazenamento de dados em nuvem ou cloud computing. Diferente de esgotar a memória do computador ou do smartphone, os dados podem ser acessados de qualquer lugar e a qualquer hora, através da internet. Documentos, fotos e vídeos pessoais são enviados para um sistema operacional on-line, uma espécie de HD digital com capacidade gigantesca.

Mas é seguro armazenar dados dessa maneira? Em 2014, por meio do Índice Global de Adoção de Tecnologia, cerca de 90% das médias empresas brasileiras já tinham aderido à funcionalidade da nuvem. Quem aposta nisso como unificação de informações é o estudante de segurança da informação na Faculdade Técnica de São Caetano do Sul, Leonardo Rodrigues, de 19 anos. No entanto, ele tem o pé atrás quanto à privacidade dos dados pessoais e lembra da ação de hackers na rede:

“A questão da Internet das Coisas é conectar o mundo físico com o digital, mapear o seu perfil para ser jogado na rede e otimizado para você, mas isso fica na responsabilidade de alguém que deverá manter seus dados em sigilo.”

E dá para acreditar que tudo fica em sigilo mesmo? O personagem de Rami Malek, ganhador do Emmy 2016 como melhor ator de série dramática, mostra que não. Em Mr. Robot, o hacker vigilante confirma o conhecido ditado: “se caiu na rede é peixe”.

A facilidade com que o protagonista descobre senhas e fuça a vida das pessoas causa espanto, e deixa o espectador se questionando sobre o alcance das informações pessoais que coloca na internet, principalmente nas redes sociais. Fabio Porto vê a superexposição como um importante tema de pesquisa e afirma que a tecnologia tem que avançar garantindo a privacidade das pessoas:

“O fato de você ter seu celular e ônibus rastreáveis faz com que sua privacidade possa ser invadida. Quanto você quer expor do seu mundo? Como a Internet das Coisas utiliza dados que você usa e manipula, você está dando informações sobre a sua vida e eventualmente disponibilizando o que gostaria de classificar.”

Protagonista na evolução da era tecnológica, ninguém mais importante do que o jovem para dar pitaco no que viu nascer e se expandir. No século em que a informação é base para transformação social e peça-chave em tomadas de decisão, o sinal é verde para criar e empreender aproveitando o mercado.

“O ideal seria o governo e as universidades investirem em mais projetos de forma externa. Não ser aquela faculdade tecnológica onde a maioria das coisas funcionam dentro dela, mas trazer um pouco disso para fora. Tornar tecnológico o bairro ao redor, para as pessoas falarem ‘nossa, aquela faculdade fez isso’, e poder passar perto e falar ‘pô, da hora, eu vou estudar lá’. Os alunos e professores também teriam responsabilidade e compromisso” — Leonardo Rodrigues, estudante de segurança da informação.

Casadei lembra que o jovem tem papel fundamental e central no futuro da tecnologia no país, e quem está ingressando na vida universitária neste momento já cresceu com a tecnologia se aperfeiçoando e sendo cada vez mais necessária.

“Um recado que eu teria para o jovem que está entrando nessa área seria não só fazer a faculdade, não só cursar as aulas, fazer provas e passar. Mas sim se engajar, fazer uma iniciação científica, se possível um estágio, programa de monitoria. Isso vai possibilitar uma desenvoltura maior no mercado tecnológico e no desenvolvimento de novas tecnologias no Brasil.”