Focada em tecnologia analítica e futebol, a OneSports quer provar que jogo também se ganha no computador

Uma partida de futebol tem 90 minutos, fora os acréscimos. Durante este período, contando apenas informações de GPS, é possível aferir 5,4 milhões de pontos de dados, por exemplo, sobre movimentação dos atletas em campo. Isso é Big Data mas já sabemos que, sozinhos, dados não ganham jogo: é preciso saber analisar este material. É nesta soma de tecnologia para coletar e analisar informações que trabalha a OneSports.

A startup é de Sorocaba (interior paulista) e já fez algumas correções de rota para conseguir competir com gigantes da análise esportiva do exterior e vencer a resistência de certos meios tradicionais do esporte. Hoje, tem como clientes grandes clubes e entidades esportivas brasileiras, além de se beneficiar com a onda fitness.

Os três sócios, Paulo Camargo, 36, Alexandre Álvaro, 35, e Fernando Endo, 34, têm trajetórias ligadas ao empreendedorismo e, também, ao esporte amador. “Costumo dizer que somos esportistas frustrados, que não conseguiram se profissionalizar. Eu joguei vôlei e o Alexandre futebol. Agregamos essa paixão aos esportes com uso de dispositivos tecnológicos, que o Fernando trouxe”, conta Paulo. Biólogo, ele tem um MBA na Alemanha. Alexandre é formado em ciência da computação e Fernando é engenheiro elétrico. Os três usaram essa multidisciplinaridade para empreender na OneSports desde 2015 e criar hardwares e softwares com o uso de tecnologias da Internet das Coisas, computação em nuvem e machine learning (aprendizado de máquina).

EMPREENDER AQUI É DIFERENTE

Os sócios contam que a empresa foi criada tendo a Austrália como principal benchmark (ou modelo de comparação de produtos, serviços e práticas empresariais). Segundo Paulo, muito do que existe hoje, tanto em termos de conhecimento científico quanto de produto e tecnologia do esporte, vem dos australianos. “Os EUA também investem, mas lá é mais recente. A Austrália tem uma história de tecnologia esportiva já desde a década de 1970, quando o país incentivou pesquisas da ciência dos esportes e da tecnologia correlata. Um grande exemplo é Catapult Sports, nossa principal concorrente”, diz.

Ele já sabia onde se inspirar, mas rapidamente ele percebeu que não bastava copiar práticas e produtos e trazê-los para o Brasil. Uma barreira óbvia é a econômica, já que o orçamento e os valores de patrocínio, por exemplo, das equipes esportivas do exterior são astronômicos se comparados aos daqui. Mas também havia o fator cultural:

“Não adiantava copiar de fora. O perfil do profissional de ciência dos esportes aqui do Brasil é muito diferente de um australiano, americano ou europeu”

Para se adaptar a essas exigências a startup adotou duas estratégias. Em relação aos softwares de análise de dados e de banco de dados, a OneSports desenvolveu uma plataforma online que reúne diversas informações ao mesmo tempo (monitoramento cardíaco, GPS, peso do atleta, entre outros) que podem ser vistas e analisadas numa mesma tela. As soluções web podem ser acessadas em navegadores e mobile (desktop ou smartphone) e os dados são enviados por protocolos de conectividade, como wifi e bluetooth. “O sistema tem alguns relatórios pré-definidos, que desenvolvemos junto a profissionais das ciências dos esportes, e também é possível customizar essas análises”, conta Paulo.

A outra estratégia diz respeito ao hardware. Como entregar um hardware, ou seja, os dispositivos que captam a informação que alimenta a plataforma online, de uma maneira que o mercado brasileiro aceitasse? Paulo diz que a ideia de simplesmente importar a tecnologia e ser, em vez de empreendedor, um representante comercial, foi rapidamente descartada: o preço era caro demais, e havia, além da burocracia de importação, o risco de um dispositivo pronto não se adaptar às características dos profissionais brasileiros.

A solução encontrada foi algo no meio do caminho. Os dispositivos são desenvolvidos na própria OneSports, mas os componentes (como as caixinhas de plástico e placas eletrônicas) são importados. “Somos como uma montadora de carro que usa itens de fornecedores especializados. Nós montamos e finalizamos todos os nossos equipamentos”, diz. A startup desenvolve e monta dispositivos como de GPS e acelerômetro (mede a movimentação e detecta a velocidade), sistemas de monitoramento cardíaco em grupo, plataforma de salto para avaliação de potência muscular e sistema de fotocélulas para avaliação de velocidade e agilidade.

Esses produtos podem ser utilizados para aferir performance e ajudar equipes técnicas de esportes como futebol, vôlei, futsal, basquete e handebol. A OneSports também atende o mercado de fitness. Neste caso, não o consumidor final mas sim personal trainers e proprietários de academias.

JUNTANDO O TIME

A principal plataforma de análise de dados da startup é o 1 Core, tem quase 2 000 atletas como usuários, além de mais de 100 profissionais das ciências dos esportes. Entre os clientes também estão clubes de futebol. São eles: Santos,Botafogo, São Caetano, Palmeiras, Sport Recife, Coritiba, Criciúma, XV de Piracicaba, Nova Iguaçu, Luverdense e Cuiabá. Hoje, em competições de futebol no Brasil, é proibido usar o tablet dentro de campo, mas um membro da comissão técnica pode estar na arquibancada ou na área da diretoria com o acesso das informações em tempo real. É o que acontece.

No futsal o principal é cliente é o Magnus e, no vôlei, o Rexona-Sesc, time do técnico Bernardinho. Paulo fala do benefício de usar a tecnologia de informação nos esportes:

“Com tecnologia, eliminamos o achismo. A performance do time melhora e as lesões diminuem. Um profissional de elite parado é um ativo muito valioso sem uso”

A receita da empresa é obtida tanto com a venda dos equipamentos como com o licenciamento dos softwares. Os preços dos dispositivos varia bastante. Um monitor cardíaco simples, por exemplo, custa 320 reais enquanto um conjunto de 30 GPSs fica na faixa de 40 mil reais (é a quantidade para um time de futebol). No primeiro ano de uso o cliente não paga o licenciamento do software da OneSports – e o preço máximo é de 25 mil reais por ano. O serviço tem uma análise básica já dentro do pacote e, se há interesse em mais detalhes e estudos, é cobrado um valor adicional.

Também há um modelo de software gratuito, que é um aplicativo que permite criar um banco de dados na nuvem. Mas, conta Paulo, quando o usuário compra um equipamento da OneSports, depois de um ano ele precisa pagar pelo software. Ele afirma que a decisão de oferecer um dos softwares gratuitamente funciona como uma espécie “cartão de visitas” da startup. Em vez de o profissional de educação física, o fisiologista ou o técnico anotarem, por exemplo, numa prancheta os níveis de dor do atleta ao final do exercício, o aplicativo gratuito permite que esses dados sejam registrados e monitorados automaticamente. “É uma estratégia de atração e retenção de clientes. Tem feito crescer nossa base de usuários exponencialmente”, diz Paulo.

UM PÉ NO MERCADO E OUTRO NA CIÊNCIA

Outra estratégia, tanto para angariar mais clientes, conseguir investimentos ou melhorar os dispositivos e programas, tem sido apostar na parceria com a academia. A OneSports tem parcerias com profissionais das ciências dos esportes de instituições como USP, Unicamp, Unesp, UFSCar, UFRJ e Unip para que eles usem os dispositivos da startup e forneçam um feedback qualificado.

Parte dos cientistas também forma um comitê de especialistas da marca, formado por acadêmicos, pesquisadores e profissionais de referência na área e tem a função de ajudar no desenvolvimento de produtos e serviços, além de também testá-los.

Essa decisão de assumir o desenvolvimento de tecnologias aqui no país também ajudou a OneSports a obter um financiamento público do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas, iniciativa da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Na ocasião, foram arrecadados 400 mil reais. A startup, no entanto, ainda não atingiu o break even, algo que Paulo estima somente para 2019. No futuro também está o plano de se aprofundar em análise preditiva de desempenho esportivo, isto é, em indicar que ações um atleta poderá tomar para ter melhor performance em determinado fundamento.

“Hoje muitas vezes isso é feito na mão, por profissionais altamente especializados com a leitura de planilhas. O tempo de trabalho para chegar em insights e recomendações é muito alto. Queremos automatizar parte desse processo para agilizar o processo. Essa automatização será feita nos clientes na medida em que seus bancos de dados forem aumentando e gerando histórico”, diz Paulo.

QUEM TEM MEDO DE INFORMAÇÃO?

Na visão dele, há uma evolução recente no profissionalismo na gestão dos clubes, principalmente os de futebol, e isso é muito bom para o mercado. Mas empresas como a OneSports enfrentam, ainda, uma certa resistência à tecnologia. “O problema é que na maioria das vezes o profissional que lida com a performance física dos atletas não é o tomador de decisão, não é quem assina o cheque. Quem faz isso é um gerente, o presidente do clube, o dono da academia”, diz Paulo:

“Muitas vezes o presidente de um clube ainda não aceita ou não está tão disposto a trabalhar com dados e tecnologia quanto o profissional de ciências dos esportes”

Para driblar essa resistência a startup têm apostado em uma estratégia, digamos, conciliadora: negociar o uso da tecnologia direto com as federações esportivas. “A intenção é fechar parcerias para que as federações repassem as tecnologias aos clubes e entidades esportivas, para que vários atletas tenham níveis próximos de competitividade”, diz Paulo. E segue o jogo.

 

Fonte: http://projetodraft.com/onesports/